
Horas antes da votação do projeto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, a Câmara dos Deputados viveu uma noite de tumulto protagonizada pelo deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). O parlamentar ocupou a cadeira do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), em protesto contra a inclusão de seu processo de cassação na pauta. A ação desorganizou a sessão, levou ao corte da transmissão oficial e terminou com a intervenção da Polícia Legislativa.
A confusão começou quando Glauber, já à frente dos trabalhos como presidente em exercício, recusou-se a deixar o comando da Mesa. Ele protestava contra o avanço de seu processo disciplinar, que trata do episódio em que chutou um militante de direita que o perseguia no Congresso. O deputado afirmou que estava defendendo seu mandato e denunciou o que chamou de “ofensiva política” contra ele.
Vejam o vídeo completo do questionamento que Glauber Braga fez a Hugo Motta.
Depois disso, Motta mandou cortar a transmissão da TV Câmara, censurar a imprensa no plenário e usar a truculência da polícia legislativa para arrancar Glauber da cadeira.
Isso precisa correr o mundo. pic.twitter.com/gZqb90LJhC
— Fábio Felix 🏳️🌈 (@fabiofelixdf) December 9, 2025
Com a resistência, a sessão foi suspensa, a imprensa retirada do plenário e a polícia acionada. Vídeos gravados por parlamentares mostram Glauber sendo removido à força. O tumulto se espalhou pelo Salão Verde, com empurra-empurra envolvendo deputados, jornalistas e agentes de segurança. Parlamentares como Sâmia Bomfim (PSOL-SP), esposa de Glauber, choraram durante a entrevista concedida após a expulsão. O deputado passou por exame de corpo de delito.
Glauber comparou o episódio ao motim bolsonarista que ocupou a Mesa Diretora em agosto, criticando o que classificou como tratamento desigual. “Naquele caso sobraram negociações. Em nenhum momento cogitaram retirar deputados à força”, afirmou. Parlamentares de esquerda, porém, fizeram ressalvas à atitude do colega, avaliando que o gesto pode reforçar as chances de cassação em plenário.
Tenho mais de 40 anos de vida pública e nunca vi nada parecido no Parlamento brasileiro. Tirar o deputado @Glauber_Braga à força da presidência da Câmara foi um soco na democracia. pic.twitter.com/1r2AaZI7cV
— Benedita da Silva (@dasilvabenedita) December 10, 2025
Na retomada da sessão, Hugo Motta defendeu a ação da Polícia Legislativa e publicou nota afirmando que a ocupação desrespeitou a instituição e prejudicou o andamento dos trabalhos. Também prometeu apurar possíveis excessos contra jornalistas — barrados da cobertura durante o tumulto. Associações como Abert, ANJ e Aner repudiaram o corte da transmissão e o impedimento ao trabalho da imprensa.
A votação do processo de cassação de Glauber deve ocorrer paralelamente às análises dos casos de Carla Zambelli (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ), ambos condenados pela Justiça e atualmente fora do país. Glauber alega perseguição política e relaciona seu processo a embates com Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, o que o parlamentar nega.
Apesar das críticas, os trabalhos foram retomados, e Hugo Motta manteve a pauta do dia, incluindo o PL da Dosimetria, que reduziria as penas impostas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a outros condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro. A votação, prevista para a noite, acabou atrasada justamente pelo episódio envolvendo Glauber.
O deputado, no entanto, disse que sua ocupação foi um ato político necessário: “Minha presença na Mesa foi para mostrar que não podemos nos render. Me acusam de defender a honra da minha mãe, denunciar o orçamento secreto e enfrentar Arthur Lira. Nada disso é motivo para cassação.”
Mesmo aliados reconheceram que o método adotado não era o ideal, mas atribuíram o cenário ao que chamam de falta de punição dos deputados que protagonizaram a ocupação bolsonarista meses antes. A crise expôs, mais uma vez, a tensão entre governo, oposição e a Presidência da Câmara em um momento decisivo para votações de alto impacto político.



