
A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras, a partir de 1º de agosto, tem como base uma motivação política, e não econômica, segundo o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central.
Em entrevista à GloboNews nesta quarta-feira (10), Schwartsman afirmou que a justificativa de Trump carece de fundamentos econômicos e reforça o viés ideológico do ato, especialmente após o republicano ter citado Jair Bolsonaro e feito críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) na carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“O Brasil tem déficit com os EUA. Não é um déficit monumental, fica em R$ 1,2 bilhão nos últimos 12 meses, e normalmente não entraria naqueles [países] que, na visão do Trump, causam ‘prejuízo gigantesco’”, afirmou Schwartsman.
“Fica muito claro que essa medida foi tomada por razões políticas – em particular, ele mencionou recentemente a iminente condenação do Bolsonaro”, completou.
Carta de Trump reforça tom político
No documento enviado à presidência brasileira, Trump afirmou que o julgamento de Bolsonaro pelo STF é uma “vergonha internacional”. Ele acusou o Supremo de censurar plataformas de mídia social norte-americanas e alegou que o Brasil representa uma ameaça à liberdade de expressão dos EUA.
“Centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS foram emitidas pelo STF, ameaçando plataformas com multas milionárias e até expulsão do mercado brasileiro”, declarou Trump.
O ex-presidente norte-americano ainda sugeriu que a nova tarifa é uma reação a esses atos e propôs que empresas brasileiras evitem a sobretaxa ao transferirem suas fábricas para solo americano.
Caso o Brasil adote medidas de retaliação, Trump prometeu responder na mesma moeda:
“Se por qualquer razão o senhor decidir aumentar suas tarifas, qualquer que seja o valor, ele será adicionado aos 50% que cobraremos.”
Brasil tem déficit comercial com os EUA, dizem dados oficiais
Apesar das alegações de Trump sobre uma relação comercial “injusta”, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Brasil registra déficit comercial com os EUA desde 2009, acumulando mais de US$ 90 bilhões de saldo negativo. Isso contraria a narrativa de que os americanos estariam sendo prejudicados economicamente.
Governo brasileiro foi pego de surpresa
De acordo com o MDIC, o Brasil não esperava a imposição da tarifa de 50%. As conversas em andamento com os EUA tratavam da possibilidade de uma tarifa de 10% para os países do BRICS, o que não indicava uma ação direcionada exclusivamente ao Brasil.
O episódio reforça o uso da política comercial como ferramenta de pressão geopolítica. Para analistas, a retórica de Trump visa ampliar sua influência internacional e marcar posição em temas sensíveis, como o alinhamento do Brasil aos BRICS e a atuação do STF.
Com as novas tarifas, setores como siderurgia, alumínio, agronegócio, aviação e plásticos devem ser duramente impactados. A postura do ex-presidente americano reabre o debate sobre o equilíbrio nas relações comerciais e diplomáticas entre os países.
Informações da Globo News



