Teresina terça-feira, 10 março, 2026

Crise climática e crimes: Uma análise por Arnaldo Eugênio, Doutor em Antropologia

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Milhares de pessoas não sabem o que acontece, e, pior, não sabem que não sabem porque estão preso na caverna de Platão – apreendem as aparências das coisas, os fazendo acreditar que essas são as próprias coisas. Por exemplo, durante a crise climática no Brasil muitos indivíduos têm praticado diversos crimes.

Concomitante às intempéries (ou crise climática), ou ainda o extremo das atuais condições climáticas (vento forte, temporal, seca, calor tórrido, nevasca etc.), o isolamento social, semelhante ao que aconteceu durante a pandemia do novo coronavírus, permite que milhares de crianças e adolescentes sejam expostos à violências, na maiorias dos casos dentro de suas próprias casas.

Enquanto um fenômeno social complexo, a violência se manifesta de diferentes formas e têm sido usada durante a crise climática, afetando as comunidades vulneráveis no país. Onde indivíduos de caráter hediondo se aproveitam de eventos climáticos extremos – tais como, secas, inundações e ondas de calor –, para roubar, furtar e violentar crianças e adolescentes.

Com o fim da sazonalidade ou um período específico do ano para as crises climáticas – especificamente as secas e as enchentes –, os seus efeitos têm impactado diretamente na subsistência, na saúde, na moradia e na segurança das comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, rurais e periféricas urbanas. Além disso, há inúmeros registros de práticas criminosas hediondas contra crianças e adolescentes.

Pois, se já não bastasse o enorme sofrimento com a escassez ou o excesso de água, que causam a insegurança alimentar, os alagamentos, as doenças e a migração forçada, evidenciando um contexto de racismo ambiental – onde os que menos contribuem para a crise são os mais afetados –, centenas de crianças e adolescentes têm sido vítimas de diversas formas de violências – física, psicológica, abandono, institucional, negligência e sexual.

Diante um crime humanitário de tamanha gravidade e repugnância – a violação dos direitos de crianças e adolescentes – é fundamental e necessário ter acesso a informações de qualidade e saber como proceder, não somente nas situações de crise climática, para que todos – instituições, familiares, amigos, vizinhos etc.– possam se unir e enfrentar a violência contra crianças e adolescentes.

Nesse sentido, todos temos a responsabilidade compartilhada e solidária de proteger as crianças e os adolescentes, especialmente vulneráveis, no contexto da crise climática. Pois, a desinformação, o silêncio e a negligência tendem a deixá-las mais expostas a situações de violências – física, sexual e psicológica.

Assim, na perspectiva humanitária é inaceitável a omissão do Estado e da sociedade no contexto da crise climática. Pois uma condição de desarranjo da natureza provocada pelo homem não pode ser justificativa para violar os direitos das crianças e dos adolescentes, com quaisquer tipos de violências, abusos, explorações e/ou negligências.

Nesse cenário ambiental preocupante para o planeta e sociocriminal devastador para crianças e adolescentes urge uma articulação institucional e intersetorial para garantir, além de minimizar os efeitos socioambientais da crise climática, um ambiente de convivência social e de aprendizagem mais seguros e resilientes.

Para tanto, é possível um caminho implementável por meio da convergência institucional da Defesa Civil, da Saúde, da Segurança Pública, da Assistência Social e da Educação para construir um plano de ações estratégicas e continuas, com o objetivo de capacitar adultos e formar estudantes (crianças e adolescentes) como agentes multiplicadores da “cultura de prevenção” em suas comunidades.

Portanto, a articulação institucional e intersetorial é imprescindível à elaboração de políticas de proteção e prevenção.

Coluna Perspectiva por Arnaldo Eugênio – Doutor em Antropologia

Arnaldo Eugênio; Cientista Social – Doutor em Antropologia – Mestre em Políticas Públicas – Especialista em Segurança Pública – Consultor do Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos (CEEDH-PI)